O que é arte?

Bruno Dalto

Para abrir a seção de colunas do blog do Coletivo 103 eu proponho uma pequena viagem na história da arte para tentar responder a pergunta-título e, quem sabe, ter um novo olhar sobre as coisas.

Vamos começar já no século XVI, com o Renascimento, onde surge a figura do ARTISTA como aquele que produz arte. Michelangelo Buonarroti – pintor do famoso afresco da capela Sistina – foi a personificação dessa idéia. Vale lembrar que antes disso a arte sempre esteve nas mãos do ARTESÃO. Ele era conhecido como aquele que sabia a “arte de fazer alguma coisa”.

Detalhe da Capela Sistina

No século XIX com a intensa e eminente industrialização surgem manifestos contra a má qualidade dos produtos produzidos em massa. Willian Morris critica as belas artes – aquela arte “separada” – e valoriza os trabalhos artesanais, num movimento que ficou conhecido como Arts and Crafts. Este movimento é base para o Art Nouveau, um movimento de artes plásticas e arquitetura – a arquitetura de Gaudi, os cartazes de Toulouse-Lautrec, fazem parte dessa escola.

Estampa de Willian Morris

Casa Batló de Gaudi

Cartaz do Moluin Rouge de Lautrec

A associação entre arte, artesanato e indústria está no coração da experiência da Bauhaus, fundada em 1919. Seus fundadores defendiam a arte-artesanato, produzida por poucos, consumida por poucos e assim com uma valorização daquele que a produz. Pra mim, o mais interessante da escola, assim como dos vários movimentos de artes aplicadas anteriores, foi que a Bauhaus tornou o cotidiano industrial mais bonito. Uma maior atenção para as peças do dia-a-dia fazia parte da pedagogia da escola.

Cadeira Wassily produzida por professores da Bauhaus

Ai eu me pergunto se o que os artesãos do meu bairro produzem, então, é, segundo a pedagogia da bauhaus, arte.

Se eu comparo com a produção da escola, vejo que essa teve uma série de mudanças e experimentações, enquanto aquele ‘artesanato’ de hoje é algo imutável, preso no tempo. Essa é a grande diferença.

Panela de Barro Capixaba

Panela de Barro Capixaba

O artista de hoje tem esse título porque produz MUDANÇA, ele está sempre tentando, experimentando e produzindo algo novo. Mesmo que este possa ser reproduzido em massa – como é o caso de Andy Wharol. Já o artesão, de forma geral, produz sempre a mesma panela de barro, que tem sua fórmula passada de geração a geração, mas ela tem a mesma forma.

Capa de Velvet Underground

Capa de Velvet Underground feita por Andy Wharol

É bem visível isso na arquitetura. Moro num morro, onde posso ver o bairro vizinho de forma panorâmica. A maioria das casas e quase idêntica porque foi feita artesanalmente, a base de muita cópia e conversas. Quando vejo uma casa feita por um profissional ela é bastante diferente, porque esse tem um grande repertório na cuca e vai sugerir experimentações diversas naquela obra.

Janela Quadrada, Volume Caixotinho, Telhado Paulista, portinha da garagem, as vezes uma sacada - uma fórmula padrão para a maioria das casas brasileiras hoje

Cada um desses produtos tem o seu valor no espaço e no tempo. A arte mostra uma história de mudanças, de questionamentos e de marcas pessoais. Já o artesanato mostra a história da tradição e sua permanência no tempo e as marcas do coletivo. Constantemente esses conceitos se entremeiam e se confundem.

Além de contar uma história individual, os objetos contam a história de um coletivo

Sugiro, aos leitores, um olhar mais demorado, em casa e na hora da compra, principalmente. Um pequeno detalhe, uma maior atenção a etiqueta

Made In ___ [valorizando produtos made in seu local!], uma técnica mais elabora e materiais de qualidade fazem toda a diferença. Pense nisso.